Os anúncios de emprego com que vou deparando, bem como as notícias que todos os dias ouço ou leio, deixam-me muito poucas dúvidas: cada vez mais caminhamos para uma situação de escravatura dos tempos modernos. Como é óbvio, para tal contribui, entre outras coisas, o facto de proliferarem os estágios não remunerados, bem como a degradação das condições de trabalho e do valor dos salários.
Foi isso mesmo que hoje li num texto de opinião muito interessante. A propósito dos números do desemprego, que parecem estar a baixar, diz o autor (um jornalista) que tal não reflecte necessariamente uma melhoria nas condições de vida, mas sim um medo generalizado que faz com que as pessoas aceitem qualquer coisa a troco de quase nada:
"É possível que a taxa de desemprego continue a descer, já que os salários estão a sofrer uma forte degradação. Só que isso, ao contrário do que pretendem os neoliberais, não representa uma melhoria das condições de vida das pessoas ou da economia. É evidente que, se os salários continuarem a descer e os despedimentos forem cada vez mais fáceis, haverá cada vez mais empregadores dispostos a oferecer trabalho por baixos salários. A questão é a qualidade desses postos de trabalho. Portugal já tem a vergonha de ser um país onde ter um emprego não representa uma protecção contra a miséria e o que tudo indica é que o número de empregados pobres vai continuar a aumentar. O que pode coincidir com uma descida da taxa de desemprego, mas está longe de ser óptimo. Se o Governo levasse a sua avante e o salário mínimo fosse eliminado (um sonho dos neoliberais), o desemprego provavelmente desceria de forma radical. Seria possível contratar trabalhadores em troca de um prato de sopa ou de um par de sapatos e haveria suficientes “empregos” para todos e muitos desesperados prontos a aceitá-los. Afinal, nas sociedades esclavagistas não havia escravos desempregados. A desvalorização do trabalho, as descidas de salários, os despedimentos, o aumento de impostos e o empobrecimento geral da sociedade têm este objectivo: reduzir os salários até ao ponto em que os trabalhadores se vejam reduzidos a uma quase escravidão. Entretanto, as televisões ir-nos-ão dando as boas notícias do Eurostat!"
A propósito dos estágios não remunerados, o jornalista, que já foi um seu defensor, agora critica-os, por serem apenas uma maneira cómoda de obter mão de obra de forma gratuita, em vez de ser um período de formação, como seria expectável:
Não caminhámos para melhor, mas sim para pior... Infelizmente também não vejo grandes progressos.
ResponderEliminarAndamos de cavalo para burro, é o que é! Mas sempre com a cabeça enterrada na areia, como as avestruzes...
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